Das Perdas Irreparáveis e da Primavera

Perder familiares, amores, amigos. Perder o gato querido de estimação. Eu tenho falado de tantas perdas que tive ao longo da vida, desde nova, quando a primeira cachorrinha morreu, até recentemente. Já perdi pai, amigo, avós, bichos, tudo em forma de morte. Já perdi amores em forma de término e amigos em forma de afastamento.

Cada um deles deixou em mim uma memória, e cada memória é um pedaço meu que ficou com o outro. Geralmente, são as coisas boas, uma tarde ensolarada num sítio em Itatiba, uma música gravada em fita cassete, um dia chorar muito abraçando meu pastor alemão, aprender a cozinhar uma receita.  Algumas vezes vêm lembranças ruins de brigas ou de oportunidades perdidas. Geralmente vem a coisa boa, a memória quentinha, o cheiro gostoso, e eu prefiro achar que o outro também ficou com um pedacinho bom de mim em troca.

Perdas. O que deixamos pra trás e o que trazemos conosco. E o que fazemos pra seguir.

Dessas últimas perdas, resolvi colar adesivos coloridos nos azulejos do banheiro. Azul, branco, mosaico. Faltou um ali no cantinho, mas não importa: ficou bonito e gosto de olhar. Tem mais uns pra colar na cozinha. Mudei um móvel de lugar. Quero comprar umas plantas bonitas e folhudas pra colocar na mesinha da sala e uma vitrola pra ouvir velhos vinis. Uma samambaia, será? Mexer nos armários, tirar as roupas velhas, arrumar o escritório. Pendurar quadros. Um lugar novo pra conhecer, um casarão perdido num bairro antigo recheado de surpresas, uma rua onde nunca passei, escrever novas histórias. Dar espaço.

Energia que circula, pra poder reconstruir, tapar o buraquinho que ficou. Ou escolher deixar cicatriz, pra marca ficar ali e não permitir esquecer. Esquecer nem sempre é bom, pra que não se repita o erro. Aí arrumo uma gaveta. Penso em uma samambaia pendurada perto da janela, no canto. Faço jantar. Como, banho, durmo. Penso em quais plantas vou comprar pra que os gatos não comam. Queria flores, uma jardineira inteira de flores coloridas.

Meu corpo anda dolorido, porque ando me exercitando muito e dormindo pouco. Dói um pouco na alma também, e isso é um pouquinho mais difícil de curar. Mas cura-se, eu sei que cura.

Uma samambaia, eu concluo. Pintar as unhas de vermelho de novo. Morder uma fruta, sentir os dentes cravados na carne da manga, o doce se espalhando pela boca. Nada traz o que se perdeu de volta, mas algumas coisas trazem a mim mesma de volta, e só isso já está bom. O cotidiano é mais que suficiente. É primavera, uma fruta, uma flor e mais um dia.

borboletas2

 

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2 comentários sobre “Das Perdas Irreparáveis e da Primavera

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