O mercado, a cigana mapuche e o suco de pomelo

Aí que eu tava em Santiago e resolvi visitar o mercado – mas não o Mercado Central, que é tipo o Mercadão de SP, mais turístico. Eu quis ir no mercado mais roots, do povo, dos chefs de cozinha. E foi assim que acabei no La Vega, um mercado também localizado no Centro, mas mais sujo, mais esquisito – e mais legal.

Entre as centenas de estandes, tem gente vendendo tempero, pimentas, frutas maravilhosas, peixes e frutos do mar fresquinhos. Comi ceviche, sashimi de polvo, queijos, frutas estranhas cristalizadas, azeitonas, amêndoas, pistaches. Enchi a pança de coisas deliciosas e ainda comprei uma caixa com os maiores e mais saborosos morangos que já comi na vida. Comprei saquinhos de temperos (que posteriormente trouxe de forma clandestina para o Brasil, morrendo de medo de passar na alfândega e ser apreendida) e frutas secas, e latas de azeitonas recheadas com coisas incrivelmente deliciosas.

Na saída, já meio rolando de tanto comer, senti um cheiro delicioso: sopaipillas fritinhas e molho pebre sendo preparados na hora. A safadeza falou mais alto do que a sensatez e colei na barraquinha de rua pra pedir uns petiscos. Era uma carrocinha como as de pipoca que vemos na porta de cinemas de rua, só que com um enorme tacho de gordura escurecida no lugar da panela.

Atrás da carrocinha, uma senhora muito pequena e muito enrugada manejava duas escumadeiras para virar os salgados, dourando por igual sem deixar queimar. Ela era pelo menos uma cabeça menor que eu – e isso é significativo, uma vez que eu meço pouco mais de um metro e meio. Usava uma saia na altura da canela sobre umas calças justas, uma blusa estampada e dois lenços diferentes na cabeça, além de uma espécie de chapeuzinho arredondado com fitas. Lhe faltava mais da metade dos dentes e ela sorria muito.

Eu, que não falo espanhol nada bem, pedi UNA SOPAIPILLA CON MUCHO PEBRE, porque gordo que é gordo aprende rápido a pedir comida. Ela já começou a fritar e disparou uma saraivada de palavras rápidas, numa espécie de dialeto que misturava espanhol e alguma coisa que não sei o que era, o que aumenta as chances de que eu tenha entendido mal. Mas ela conseguiu puxar meu braço, sem parar de fritar, e olhou pro dorso da minha mão, analisou minhas unhas e disse que eu ia ficar rica. Vejam bem, não lembro as palavras exatas, mas ela falava muito em “mucho diñero” “gran salud” “mucha alegria””hay talegas” e coisas assim.

Ela falava rápido, e a sensação era de que ela tinha três braços, porque com dois ela ia virando os pastéis, ao mesmo tempo em que segurava meu braço e profetizava sucesso. Mesmerizada, eu só fazia que sim com a cabeça e ela ia falando, falando… Disse que era Mapuche, que vinha de muito ao sul e sabia ver a sorte e o futuro. E que ia me abençoar com a fortuna. E que eu ia ser muitíssimo feliz.

Eu ouvi, atenta e pensando que eu tinha ido até um lugar bem longe pra que alguém me lesse a mão enquanto fritava pastéis. Quando ela se calou e me estendeu uma sopaipilla, sorrindo, eu sorri de volta, paguei com umas moedinhas e pedi um suco de pomelo, que nada mais é do grapefruit, e por isso, azedíssimo. Fiz cara feia ao beber, e ela me deu uns tapinhas no ombro e disse:

“Eh, dá-me una sonrisa, la vida es feliz”

Agradeci e fui pro metrô, com meus morangos, meus temperos e meu sorriso estampado na cara. Sim, a vida é feliz mesmo.

Não é ela, mas poderia ser.

             Não é ela, mas poderia ser.

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