Sobre contar histórias

Somos todos contadores de histórias. Foi isso que disse hoje a um amigo em crise com seu trabalho, e foi isso que disse há algum tempo a outro amigo também confuso com sua vida. Eu sou publicitária; eu invento maneiras de vender produtos que vocês nem precisam. Mas não é isso que eu faço de verdade, o que eu de fato gosto. Eu conto histórias. Não as histórias criadas pelos publicitários pra vender suco e sorvete – eu conto histórias de verdade. As minhas.

redridinghood

Eu podia contar sobre quando um ganso mordeu minha bunda na mesma viagem em que fui perseguida por uma vaca nelore ao entrar num pasto onde não devia, quando eu tinha uns 14 anos e viajei pela primeira vez sem minha família.

Poderia discorrer sobre como fui passear no Jardim Botânico de outra cidade e saí numa foto onde estou tão bonita com o sol matinal batendo no meu rosto que ninguém imaginaria a tristeza que eu sentia por dentro naquela hora.

Podia contar sobre o rato que morava no depósito da loja onde trabalhei e como evitei que o exterminador o matasse de maneira horrível, apontando pro outro lado ao mesmo tempo em que fazia barulho pra espantar o bicho.

Seria engraçado contar sobre o dia que acordei tão perdida que confundi a pasta de dente com o tubo de tinta de cabelo e quase pintei a boca toda de vermelho-dourado-claro nuance 8.4 da Majirel, mas isso nem me surpreendeu porque teve aquela outra vez quando fiquei puta no ônibus porque meu bilhete único não passava, e esbravejei contra o equipamento apenas pra perceber que estava tentando pagar a condução com meu crachá da empresa, e o cobrador me chamou pelo nome enquanto ria da minha cara.

Teve aquela vez em que uns amigos meu brigaram numa festa e o que tentava apartar a briga foi justamente o que levou uma cadeirada na perna e acabou a noite no hospital enquanto o causador da briga, bêbado, ria da cara dele na sala de espera.

E teve o dia que achei que tinha um fantasma assombrando minha cozinha, mas era apenas mau contato no interruptor, coisa que descobri depois de uma noite bem assustadora de luz apagando e acendendo sozinha, porque ela continuou a fazer isso de manhã e não faria sentido algum o fantasma continuar ativo depois que clareou, e esse raciocínio muito lógico me levou a olhar os fios.

universe

 

E quando eu tinha emagrecido tanto, muito mais do que eu imaginava ser possível no começo de tudo, e aí entrei numa calça 44, e ficou grande, e entrei numa 42 e serviu certinho e eu liguei pra uma amiga e mandei foto e chorei e ri ao mesmo tempo e fiz uma dancinha da vitória no provador da Renner.

 

Eu também tive uma noite maluca numa roda de samba em que ensinei o coreógrafo de Vogue a dar uns passinhos de gafieira e a fazer “the samba face”, e depois ele usou essa mesma cara numa apresentação num grande evento, e me adicionou no facebook.

Teve uma outra noite onde me sentei numa duna na beira da praia e fiquei olhando as pequenas poças deixadas pela maré que recuava, que refletiam um céu tão estrelado que quase parecia dia, e aí uma estrela despencou, e eu fiz um pedido, e caiu outra e outra, até que eu já nem sabia mais que pedidos fazer, e tudo que eu pude fazer foi rir sem parar enquanto o céu caía e eu me sentia insanamente feliz.

E aquela vez em que estava parada no trânsito na Marginal Tietê, no fim de um dia muito comprido, e um palhaço se aproximou de mim e eu rezei pra ser um assalto, porque tenho tanto medo de palhaço que achei que ia sair gritando do carro com toda a certeza, então melhor se fosse assalto porque aí pelo menos justificaria meu pânico e eu me sentiria menos idiota.

Eu conto histórias. É isso que eu faço.

weallhave

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