O ganso assassino, música sertaneja e a vaca nelore

Quando eu tinha uns 14 anos, viajei pela primeira vez sem nenhum membro da minha família: fui com uma colega da escola pra sua fazenda, que ficava a algumas horas de São Paulo, com piscina, cavalos, pula-pula e mil atividades legais pra umas adolescentes tontas. Numa era pré-celular, era tudo que poderíamos querer num feriado – hoje em dia seria necessário wi-fi, mas eram tempos mais simples.

Chegamos à fazenda depois de muitas horas de carro, período no qual pude descobrir que o pai da Eloísa era fã de sertanejo. Mas muito fã mesmo, de verdade. Ele ouviu sertanejo o caminho todo, sem parar por um quilômetro sequer, e depois passou o feriado alternando CDs de Leandro&Leonardo, Chitãozinho&Xororó, João Paulo&Daniel e sei lá mais quem. Eu nunca tinha ouvido essas coisas e achei tudo muito esquisito, e na verdade um pouco ruim. Mas como estava lá de favor, comendo de graça, não ia dizer nada, apenas rezar pras pilhas do meu walkman durarem por 4 dias. Não duraram, claro, e eu acabei me familiarizando com todas as músicas horrorosas que eles ouviam.

Lá pelo terceiro dia, fui pra beira de um laguinho fofo, me sentindo muito bucólica e bonitinha. Vi uns gansinhos fofos que grasnaram pra mim. Achei super bonitinho, uma espécie de integração com a natureza, eu ali linda de shortinho e os pássaros conversando comigo.

O que eu não sabia era que gansos são muito bravos, mordem, atacam pra defender seu território, têm dentes e seus pescoços compridos deixam seus bicos afiados exatamente na altura da minha bunda. Ao notar a belicosidade da ave, saí correndo, emulando Tippi Hedren em Os Pássaros, fazendo a linha Hitchcockiana, porém sem nem um terço da classe dela.

tippi

Em vão: o ganso mordeu minha bunda. Doeu horrores, ficou roxo, um horror. O pai da minha amiga riu da minha cara, minha amiga riu da minha cara, e depois de um tempinho eu mesma ri da minha cara, porque foi bastante estúpido da minha parte achar que os gansinhos iam ser meus amiguinhos como se eu fosse a Branca de Neve de Pirassununga, e viriam cantar ao meu lado enquanto a gente corria pelas colinas alegremente.

Nessa mesma viagem fui perseguida por uma vaca nelore e atravessei uma cerca de arame farpado em alta velocidade sem ficar com um arranhão, mas essa é uma história menos legal, porque vacas são grandes e um pouco assustadoras se a gente pensar que elas podem querer se vingar por todos aqueles burgers que a gente já comeu, então eu prefiro falar do ganso.

Depois da mordida, tive que dormir de bunda pra cima por uns dias, ao som de música sertaneja. Depois dizem que a adolescência é um momento difícil e a gente nem sabe o por quê. Eu sei: porque na minha adolescência aconteceram coisas horríveis como por exemplo ter a bunda mordida por um ganso agressivo.

 

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