Não passarão

Quando ando sozinha na rua ando de cabeça erguida, pisando duro, olhando pra frente, cabelo solto, fazendo cara de brava. Aprendi que assim ouço menos merda enquanto passo. Eu intimido.

Desde que meus peitos cresceram me acostumei a ouvir coisas na rua. E não, não são elogios. Elogio é alguém me dizer “que cabelo bonito” ou “como você é gentil”. Só que ninguém diz isso.

Eles dizem “quero te comer”, “gostosa”, “que bucetão”, “te chupo toda”. Eu ouvi essas coisas pela primeira vez com uns 14 anos. Eu era uma menina nova, tonta, mal tinha beijado na boca. Se bobear, ouvi esses absurdos antes de beijar na boca pela primeira vez. E eu tinha medo, medo de um desses homens me tocar, me seguir, me machucar.

Eu não tinha medo de assalto quando andava de ônibus voltando da faculdade onze da noite. De assalto, não, porque no assalto iam levar um pouco de dinheiro, um cheque, um cartão, um telefone. O que me apavorava era o medo de ser abusada. De ser estuprada. Eu andava com a chave de casa na mão pronta pra enfiar em alguém. Eu via um homem do outro lado da rua e apertava o passo, vigiava o que ele fazia, atravessava a rua se necessário, entrava em uma padaria, um bar, qualquer coisa com mais gente, pra esperar o homem passar.

Hoje ando de carro. Mas quando saio pra almoçar sozinha e passo perto de homens na rua, eles ainda falam. Quando ando pelo bairro e passo na frente do bar, eles falam. Só que de alguma maneira achei minha voz aqui dentro e agora paro e respondo. Olho nos olhos dele e falo alto, quase gritando “O QUE VOCÊ DISSE? PODE REPETIR OLHANDO PRA MIM?” E eles nunca repetem, nunca. Eles baixam a cabeça, dão risadas desconfortáveis, olham pro lado. Eles não têm coragem de repetir.

Porque não é sobre sexo; nunca na história da humanidade uma mulher ouviu um “que tesão” e parou e disse “nossa, esse desconhecido na rua me acha um tesão? ora, vou transar com ele agora mesmo!”. Não é sobre sexo. É sobre poder, sobre humilhar e dominar.

Claro que faço isso em plena luz do dia em lugares movimentados. Se estivesse sozinha numa rua escura, não teria coragem. Mas tenho a sensação de que começar a responder de dia é o primeiro passo. E isso vai ajudar a inibir esses cuzões malditos que querem humilhar mulheres.

Não permito mais que me humilhem. Prefiro passar por louca em público do que me sentir vítima. Não deixarei passar, nunca mais. E ando com a cabeça erguida para que saibam que eu não sou uma vítima e que não serei mais humilhada, nunca mais. Piso duro, olho pra frente e uso a voz que encontrei pra responder a qualquer coisa.

Não passarão.

(esse post é pra Isa, que sofreu essa semana. E pra todas nós que sofremos todos os dias.)

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