Cadeirinha

Dêem play na música antes de ler. Vai ser legal.

Toda semana eu vou à terapia e presto atenção no consultório ao lado do qual eu sou atendida. Através da porta vejo uma poltrona estampada e, ao lado dela, uma cadeirinha em miniatura. É uma cadeirinha de madeira, simples, porém muito pequena para que alguém se sente, mesmo uma criança, e muito grande para ser colocada sobre uma mesa como decoração.

Certas vezes há uma caixa de lenços de papel sobre a cadeirinha, noutras ela está vazia, e essa semana havia um pequeno vaso de plantas sobre ela. O que nunca vi é alguém sentado na cadeira. É um cadeira que não foi e nem será usada para a função para a qual foi criada, a menos que um elfo ou gnomo resolva sentar-se ali. É uma cadeira-mesinha, cadeira-banquinho, cadeira-suporte, cadeira-enfeite. Só não é uma cadeira-cadeira. E que triste ser uma cadeira que é qualquer coisa, menos uma cadeira, por mais que se pareça com uma cadeira na forma e proporção.

Ontem à noite, depois de escrever um email muito longo que jamais mandarei, eu pensei nessa cadeirinha e na inadequação da existência dela. Em como ela existe por nada, em como outros objetos poderiam fazer o papel que ela faz de maneira mais completa e adequada, em como ela é desnecessária. Se a cadeirinha não estivesse ali, ninguém precisaria dela. Pra quê essa cadeirinha que nunca é o que deveria ser, que não consegue ser quem ela precisa ser? Fora com a cadeira.

E aí eu não chorei. Eu deitei e dormi, e acordei hoje sem chorar. E agora, espero que não chore, pelo menos por um tempo. Eu sento no chão, eu boto o vaso sobre o aparador, e a caixa de lenços eu não quero precisar.

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Pintura de guerra

“Deus me livre ser pega numa curva sem meu batom vermelho”, eu disse pra minha amiga. E ela respondeu que nunca me viu sem.

Acordo todos os dias, e depois do banho vem a maquiagem. Corretivo leve, bb cream, blush rosado, rímel. E o batom vermelho. De uns 3 anos pra cá uso sempre, uso todo dia. É minha pintura de guerra.

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Eu preciso disso pra sair de casa e olhar pra fora e ver o mundo que me aguarda. Sem isso, me sinto menor, mais frágil. Pode parecer imposição da midia, pode parecer uma vontade de ser quem eu não sou. Mas é mais que isso, ou é isso junto de outras coisas: é a máscara que coloco pra me sentir mais forte. Apesar de ter postado foto sem make, aquela não sou eu todos os dias. Eu todos os dias sou mais forte, mais dura, mais alta, com ombros mais largos. A cobertura das imperfeições do rosto esconde algumas verdades que me deixariam mais frágil, e me ajuda a seguir dia após dia. Ao me cobrir um pouco, me sinto mais forte. Pronta pra guerra.

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Talvez por isso eu ame tanto as drag queens, as travestis. Elas conseguem criar uma persona nova, muito diferente de quem elas aparentam ser. Ali nas camadas de pancake e sombra e cílios postiços elas mostram seu verdadeiro eu, infinitamente mais forte do que seus corpos de nascença. As drags com suas plataformas ficam altíssimas, poderosíssimas, riquíssimas, lindíssimas, inteligentíssimas. Elas usam a máscara não pra se esconder, mas pra mostrar quem são.

E eu, por trás do bb cream que esconde a olheira da noite mal dormida, aproveito pra roubar um pouquinho e seguir pisando duro, olhando pra frente, batendo os saltos com força no chão. Elas, quando tropeçam transformam a queda num passo de dança. Eu tento copiar o movimento, fazendo passinhos meio canhestros, mas indo firme sem cair. Ou pelo menos dançando enquanto caio de bunda, estabacada na realidade.

NOT TODAY, SATAN.

Eu penso em Sarah

Um dos meus gibis favoritos é The Dark Knight. Li quando era moleca e achei tudo muitíssimo legal, o traço, a história, os diálogos. Tudo, mesmo. Mas o que mais me marcou não foi o Batman dando porrada no Coringa, no Charada e no Super Homem (VAI BÁTIMA!),  e nem mesmo a Robin ser uma garota mais ou menos da minha idade, sardenta como eu e com os cabelos curtos como os meus. Quem eu achava foda mesmo era o Comissário Gordon.

Jim Gordon, com seu bigodão, seus óculos, seu sobretudo amassado e seu ar de cansaço, de quem já viveu demais e viu muita coisa que não precisava ver. Eu gosto do Jim Gordon. Ele é casado com Sarah, que no quadrinho é uma tranquila dona de casa. Enquanto Jim passa por coisas horríveis, ele repete pra si mesmo: “Eu penso em Sarah. O resto é fácil.” A cada decisão que ele toma, ele pensa nisso e repete a frase pra si mesmo.

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É um mantra. O pensamento em Sarah o enche de coragem, por vezes faz com que ele seja cauteloso, noutras dá forças pra que ele faça coisas difíceis. Sarah é o que faz com que ele continue, todos os dias, em condições muito adversas e muito difíceis.

Em outra linha da história, de outro autor, Sarah é morta pelo Coringa, mas dessa eu não gosto. Prefiro a versão do Frank Miller, onde ela e Jim se reencontram enquanto a cidade queima ao fundo. Sarah aparece apenas no fim do quadrinho, de longe, sem rosto. Não sabemos bem como ela é, e isso não importa. Ela é Sarah, e faz com que o resto seja fácil.

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Essa certeza que Jim tem de que Sarah faz o resto fácil é um amor incondicional, uma fé e esperança que fazem com que ele seja o personagem mais humano de todos, e acho que isso foi o que fez com que eu gostasse tanto dele. Hoje, mais de 20 anos depois, eu releio o quadrinho com outros olhos, com um olhar mais carinhoso de quem revê um velho amigo querido que foi morar longe, mas voltou.

E quando me deparo com uma situação difícil, eu penso em Sarah. Não na do Gordon, que nem conheço, mas em algo ou alguém que representa para mim essa esperança que se mantém viva. Algumas vezes é outra pessoa. Noutras, eu mesma. Meus gatos. Minha mãe. Amigos. Uma coisa que eu goste muito, como torta de limão. Na maior parte das vezes, em uma situação específica, é uma pessoa específica.

Eu havia feito um outro post, mais sombrio. Não publiquei, guardei pra outro dia. Hoje, por enquanto, ainda penso em Sarah. O resto não é tão fácil, mas acredito que possa ser. O resto vai ser fácil.

Faça O Que Quiser

No livro A História Sem Fim (leiam porque é bem melhor que o filme) um dos jovens heróis da história recebe de presente um universo destruído e um medalhão mágico que lhe permite recriá-lo à sua maneira. O medalhão exibe duas cobras entrelaçadas, uma engolindo o rabo da outra, simbolizando a eternidade. Na parte de trás do medalhão, a frase “Faça O Que Quiser”. O garoto se vê frente a frente consigo mesmo, e com todo o livre arbítrio possível nas mãos.

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E o livre arbítrio é um pesadelo, é um peso enorme, meus amigos. Porque a cada escolha, há uma consequência, como nosso jovem herói rapidamente descobre.

Ter em mãos o poder de escolher o que fazer é o maior presente e castigo que a raça humana possui. Não somos pré-determinados, não saímos do útero programados. Tudo a gente aprende, e tudo a gente escolhe. O tempo todo, todo dia, fazemos uma escolha depois da outra. Ir de carro? Almoçar aonde? Ligar pra sua amiga e bater papo? Dizer que ama alguém importante? Aceitar a oferta de emprego? Ter um filho? Ir viajar? Fazer greve de fome em protesto ao que se acredita?

O tempo todo escolhemos as coisas pequenas e grandes, e isso é mais assustador do que parece. Porque assim como escolher o esmalte vermelho ou o rosa não deve afetar sua vida, escolher aceitar a oferta pra mudar de emprego muda muito. E a cada escolha, uma renúncia: o esmalte vermelho é lindo, mas abri mão do rosa. Casar é ótimo, mas nunca mais vou ficar com outra pessoa?

O lance é que as escolhas, quando claras, são fáceis. O novo emprego paga mais, é numa empresa boa e você conhece o chefe, ele é legal. Fácil: vai pro emprego novo. Porque você tem uma clareza, uma facilidade de entender e escolher. É claro que você nunca mais vai ficar com niguém; você ama demais o cara que escolheu pra marido. É óbvio que você vai ter o filho, você tá grávida e sempre quis ser mãe e tem uma vida financeira bacana e um companheiro pra dividir as dificuldades.

O problema é quando não é. Você ama a pessoa, mas não consegue ser fiel. Você sempre quis ser mãe, mas tá desempregada e o pai sumiu. A proposta de emprego novo paga bem, mas é do outro lado da cidade. O esmalte vermelho é lindo, mas você sempre gostou mais do rosa. E quando a questão é emocional, mais do que racional, aí é que enrosca. Porque envolve outra pessoa, envolve mágoa, envolve carinho.

Aí você quer ter tudo. Você quer comer o bolo inteiro e a cobertura também. Só que não dá, ninguém aguenta, ninguém lida. Só pode comer um pouco, senão engorda, faz mal, dá dor de barriga. E eu sei que o bolo é lindo. Eu sei. Mas não é assim que funciona o mundo. Escolha seu pedaço e coma até o fim.

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Roubei a foto da Nena, que faz bolos maravilhosos mesmo. E esse bolo não-metafórico tá liberado comer mais de um pedaço.