Avelã

Estava lendo sobre o assunto e finalmente descobri a cor dos meus olhos: avelã. Hazel, em inglês. Não é castanho nem verde nem mel, é outra cor que mistura um pouco de cada uma dessas coisas.

A gente os enxerga dessa cor por conta de uma combinação de quantidade e distribuição de melanina somada a um efeito ótico chamado Dispersão de Rayleigh. Não confundam com os olhos âmbar, esses são mais amarronzados, dourados e têm a cor mais regular e uniforme.

O avelã é essa cor que faz com que as pessoas olhem e me perguntem: “que cor são seus olhos?” e eu responda “depende”, não porque eu seja misteriosa e exótica, mas só porque depende muito da luz, do humor, de quem está olhando, do que sinto no dia, dos hormônios e das vontade.

É uma cor incomum, uma vez que ela surge quando os antepassados misturam pessoas de olhos azuis, verdes e castanhos. Exatamente meu caso, graças ao Avô Adolpho, que tinha olhos verdes como garrafa de guaraná, e casou-se com a Vó Esther, de olhos castanhos e puxadinhos como os meus. Dali vieram os olhos dourados da Marcia, que ao se casar com o Decio, de olhos castanhos, filho de Carmo e Natalina, descendente de italianos e índios, gerou a mim, com os olhos avelã.

Eu gosto de entender as coisas; gosto de saber as coisas. Gosto de entender meus olhos. Gosto de saber de onde vim. E ultimamente, tenho gostado dos meus olhos. Tenho gostado um pouco mais do que vejo quando olho pra eles.

 

 

 

Eu penso em Sarah

Um dos meus gibis favoritos é The Dark Knight. Li quando era moleca e achei tudo muitíssimo legal, o traço, a história, os diálogos. Tudo, mesmo. Mas o que mais me marcou não foi o Batman dando porrada no Coringa, no Charada e no Super Homem (VAI BÁTIMA!),  e nem mesmo a Robin ser uma garota mais ou menos da minha idade, sardenta como eu e com os cabelos curtos como os meus. Quem eu achava foda mesmo era o Comissário Gordon.

Jim Gordon, com seu bigodão, seus óculos, seu sobretudo amassado e seu ar de cansaço, de quem já viveu demais e viu muita coisa que não precisava ver. Eu gosto do Jim Gordon. Ele é casado com Sarah, que no quadrinho é uma tranquila dona de casa. Enquanto Jim passa por coisas horríveis, ele repete pra si mesmo: “Eu penso em Sarah. O resto é fácil.” A cada decisão que ele toma, ele pensa nisso e repete a frase pra si mesmo.

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É um mantra. O pensamento em Sarah o enche de coragem, por vezes faz com que ele seja cauteloso, noutras dá forças pra que ele faça coisas difíceis. Sarah é o que faz com que ele continue, todos os dias, em condições muito adversas e muito difíceis.

Em outra linha da história, de outro autor, Sarah é morta pelo Coringa, mas dessa eu não gosto. Prefiro a versão do Frank Miller, onde ela e Jim se reencontram enquanto a cidade queima ao fundo. Sarah aparece apenas no fim do quadrinho, de longe, sem rosto. Não sabemos bem como ela é, e isso não importa. Ela é Sarah, e faz com que o resto seja fácil.

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Essa certeza que Jim tem de que Sarah faz o resto fácil é um amor incondicional, uma fé e esperança que fazem com que ele seja o personagem mais humano de todos, e acho que isso foi o que fez com que eu gostasse tanto dele. Hoje, mais de 20 anos depois, eu releio o quadrinho com outros olhos, com um olhar mais carinhoso de quem revê um velho amigo querido que foi morar longe, mas voltou.

E quando me deparo com uma situação difícil, eu penso em Sarah. Não na do Gordon, que nem conheço, mas em algo ou alguém que representa para mim essa esperança que se mantém viva. Algumas vezes é outra pessoa. Noutras, eu mesma. Meus gatos. Minha mãe. Amigos. Uma coisa que eu goste muito, como torta de limão. Na maior parte das vezes, em uma situação específica, é uma pessoa específica.

Eu havia feito um outro post, mais sombrio. Não publiquei, guardei pra outro dia. Hoje, por enquanto, ainda penso em Sarah. O resto não é tão fácil, mas acredito que possa ser. O resto vai ser fácil.