Tudo bem.

Tudo bem ficar puta. Tudo bem ter muita raiva, mas muita mesmo. Não precisa ser zen o tempo todo. Olhar pra foto e ficar com vontade de bater, de ligar e mandar tomar no cu. Inclusive pode sim ligar e mandar tomar no cu, dane-se se te acharem uma louca. Tudo bem mesmo.

crazy bitch

Pode chorar também. Pode chorar muito, se descabelar, entupir o nariz, inchar os olhos, encher uma Cantareira com as lágrimas. Avisem o Alckmin que o problema da seca está resolvido, abram as torneiras à vontade. E se alguém perguntar porque tá chorando diga a verdade, que tá chorando porque está triste, mas que tá tudo bem, porque a gente chora mesmo quando tá triste mas depois passa e fica tudo bem.

Pode ter mil variações de humor durante o dia, se apaixonar por alguém por causa de uma foto ou uma piada ou uma referência e tudo bem desapaixonar logo depois ao descobrir que a pessoa gosta da banda que você odeia. Pode deixar o coração se ocupar, faz o bicho trabalhar, exercita o músculo, força o coração a colar os pedacinhos no lugar. Fisioterapia, cara. Fisioterapia faz bem.

coração

Tudo bem se sentir quebrada, sozinha, triste. Pode se sentir feliz também e estranhar a felicidade. Tudo bem chorar quando o shuffle bota aquela música. E tudo bem rir alto lendo um post engraçado. Pode sair com amigos e dançar e rir e pode ficar em casa.

 

Respira fundo, quem passou dos 30 sabe que não se morre de amor. Nem de desamor. Tá tudo bem.

Acima de tudo, pode acreditar na Bianca del Rio e achar que hoje não, Satã. E repetir todo dia até passar a ser verdade. Aí vai estar tudo bem.

nottoday

 

 

#StopTheBeautyMadness

Eu faço 37 anos nesse sábado. Eu tenho ruga, mancha na pele, marca que conta história. Tenho uma ruga grande perto da boca que aparece mais quando sorrio. Uma outra na testa, de levantar as sobrancelhas. Tenho uma manchinha do lado direito que apareceu depois de um tempo na praia. Tenho olheira, que agora até melhorou depois das férias porque dormi e descansei bastante.

Só que quase ninguém sabe disso, porque antes de sair de casa eu passo BB Cream, rímel, blushzinho. Eu posto foto na internet com luz legal, com filtro. Se eu soubesse mexia no photoshop pra me deixar mais magra, mais linda, mais jovem.

E eu queria muito participar dessa coisa do #StopTheBeautyMadness. É um movimento que começou na gringa, mas tá ganhando espaço aqui no Brasil: meninas postam suas fotos sem make, sem filtro, e desafiam algumas amigas a fazer o mesmo. Isso serve pra mostrar que as fotos que a gente vê por aí e com as quais a gente se compara não são exatamente a vida real. Aquela moça da revista foi retocada, maquiada, editada. A sua amiga tirou 15 fotos antes de achar uma legal e postar. A vida real tem ruga, olheira, mau humor, descabelamento. A gente usa mil produtos pra esconder a vida real.

Além de postar no FB, quis também conversar aqui e falar dessa coisa da idade. Porque envelhecer não é simples, não é fácil. Eu olho no espelho e vejo as mudanças, e me comparo com as mocinhas de 20 anos na TV e com a mocinha de 20 anos que eu fui, e é difícil. Eu pondero sobre o que fazer quando as rugas forem maiores. Até quando eu vou olhar no espelho e estar em paz com a história que meu rosto conta? Será que vou me achar feia, velha, estranha?

Por enquanto essa sou eu depois de uma boa noite de sono. Descabelada, meio amassada. E é assim mesmo que eu sou, sem make, sem filtro, na câmera frontal do telefone – e com um pouco de vergonha por não estar escondida atrás da máscara de produtos desenvolvidos pra me padronizar.  E você? Quem é você?

image

 

Medo de voar

Eu tenho medo de avião. Assim, não é uma fobia, aquela coisa paralisante, mas eu fico muito, muitíssimo desconfortável. Meu coração dispara, eu suo nas palmas das mãos, eu olho pra fora e tudo que consigo pensar é MINHA NOSSA SENHORA EU TÔ NO CÉU NUMA MÁQUINA ENORME EM ALTA VELOCIDADE PORQUE EU NÃO TÔ COM OS MEUS PEZINHOS NO CHÃO COMO ASSIM AI AI AI AI num loop infinito interrompido apenas pelos simpáticos comissários de bordo que me oferecem coisinhas pra comer e eu aceito assim sem nem pensar na dieta, porque convenhamos, se eu tô achando que vou cair dali a qualquer momento que se dane, me dá aqui esse biscoito passatempo recheado, me dá logo dois e uma coca também.

euzinha a bordo

O pior momento é a decolagem, quando as rodas do avião perdem o contato com o chão e ele sobe rapidão – depois que ele está no ar eu fico menos tensa, embora continue olhando nervosamente pela janela à espera do monstro que vai comer a turbina. Cêis sabem do que eu tô falando.

monstro

Clica pra ver um trechinho desse filme, clica.

A única vez em que não fiquei assim numa decolagem foi quando estava voltando de Brasília, depois de ir ao casamento de um amigo. O vôo previsto pras 3 da tarde atrasou um bocado e acabamos decolando já no fim da tarde, com o sol se pondo. Meus amigos, o céu de Brasília ao pôr do sol é algo digno de nota. Brasília ao pôr do sol não precisa de filtro. Vermelho, rosa, dourado e laranja se misturam e a camada de nuvens parece banhada em ouro líquido. Enquanto os raios de sol criavam riscos de raio laser no céu, o avião subia,  indo de encontro a esse esplendor dourado. Eu, tonta, não fotografei nada, só fiquei ali olhando atarantada.  mas não faz diferença: As fotos não fazem jus. Acho que a lente não capta a sensação de por um momento só estar mais perto de Deus, de me sentir ao mesmo tempo muito pequenina e parte de um todo muito grande, de entender de repente que as coisas fazem sentido. Chamem de delírio causado pelo medo, eu chamo de epifania.

Aquele vôo fez com que eu repensasse tantas coisas, e isso foi tão importante nas mudanças que ocorreriam depois. Agora cada vez que eu entro num vôo eu secretamente fico esperando que aconteça alguma coisa lifechanging. E aí no meu primeiro dia de férias eu estava aqui vendo Los Amantes Pasajeros e acho que no próximo vôo eu quero ao menos uma coreografia assim. Me pergunto que tipo de epifania eu teria nesse caso.

Mas eu realmente fico pensando em por que tenho esse medo irracional. Eu sei que o avião é seguro; que morre mais gente em acidente de carro por dia do que em acidente de avião por ano e que acidentes no banheiro são 30 vezes mais fatais do que acidentes aéreos ou alguma outra estatística igualmente relevante que mostra que dirigir até a Berrini ou tomar banho todo dia é tecnicamente mais perigoso do que voar algumas vezes por ano. Racionalmente entendo que estou perfeitamente a salvo. Mas nada disso faz com que passe esse frio na barriga, a sensação de se um sisteminha falhar todo mundo ali vira pó de estrelas – e talvez seja esse o ponto. Essa certeza de fatalidade.  Ninguém dá uma batidinha com o avião como fazemos com nossos carros, ninguém escorrega de leve com o avião e cai de bunda como fazemos às vezes no banheiro. Não tem sustinho no avião. Ninguém tem um leve acidente de avião.

Que medo eu tenho de coisas que são ou tudo ou nada.

 

Olá, Andes

Daqui a uma semana saio de férias, daqui a duas viajo pra fora do Brasil pela primeira vez. E sozinha, pela primeira vez.

Acho que vai ser legal; espero que seja legal; rezo pra que seja legal, porque eu morro de medo de avião e vou voar em uma linda aeronave da Sky Airlines, de quem eu nunca ouvi falar, então é possível que na verdade eu vá parar na ilha de Lost, e se por um lado uma temporada em uma linda praia me pareça tentador, por outro tenho certo receio da fumaça preta me matar; e não tenho dinheiro e vou gastar com isso; então é melhor que seja muito legal mesmo senão eu vou sair atirando empanadas na cabeça dos passantes do alto do Cerro Santa Lucia em um surto emocional. Tem empanada no Chile, né?

Tem.

Tem sim.

Tudo que sei sobre Santiago: era barato e cabia nas milhas que minha mãe gentilmente cedeu. E tem parques bonitos que você pode alugar bicicletas e dar um rolê (de capacete, foi o que li, é obrigado a usar capacete. E meu cabelo? Vou levar secador. E a tomada, como é lá? Melhor raspar a cabeça antes de viajar?). Tem um passeio de bike por vinícolas, o que me parece temerário, porém altamente divertido. Tem a casa do Neruda, tem o Valle Nevado ali pertinho, onde por uma módica quantia esta caipira que vos fala vai ver neve pela primeira vez. Considerando minha caipirice, é provável que eu peça a desconhecidos que tirem fotos minhas constrangedoras na neve, ou tente construir um boneco de neve usando todo meu talento manual com resultados igualmente constrangedores. E tem salmão, porque todo salmão do Brasil vem numas caixas escrito Product of Chile, então suponho que seja de lá.

Linda imagem de Santiago; ao fundo os Andes, no meio a parte onde vou me perder várias vezes.

Linda imagem de Santiago; ao fundo os Andes, no meio a parte onde vou me perder várias vezes.

Eu não falo espanhol. Eu não sei fazer conta de conversão de moeda. Meu estômago é sensível. Eu não tenho a menor noção de como se diz.”moço, me vê un engov porque eu fui no tour das vinícolas ontem e o ato de viver hoje tá muito difícil” (lembrete: googlar essa frase e levar anotada). Eu não tenho street credit, e embora tenha lido que Santiago é uma cidade calmíssima, estou preparada pra encontrar os Warriors no metrô.

Todos vocês, neuróticos, sabem do que estou falando: quem controla tudo direitinho morre de medo de se meter em um lugar desconhecido. E não me encham, eu sei que uma semana em Santiago não é exatamente uma grande e emocionante e periogosa aventura, mas eu faço lista de compras pra ir ao mercado, eu arrumo minhas meias separadas por cor, eu planejo cada passo da minha vidinha. Então essa coisa de passar uns dias sozinha, longe de amigos e familia, em uma cidade em outro país é bem nova e esquisita pra mim. Respeitem a velha.