Escrever É Músculo E Os Meus Estão Claramente Flácidos. 

Estou há alguns meses trabalhando em uma agência onde além de planejamento semi-assumi a função de redatora. A grosso modo, isso quer dizer que sou responsável por textos que vão para o cliente. Ou seja, agora eu tenho que escrever pra ganhar meu salário no fim do mês. E aí escrevo como o cliente gosta, daquele jeitinho mesmo que vai caber no modelo da firma, da maneira que reflete o posicionamento de marca.

E nossa, isso é horroroso.

Eu devia ter vergonha de escrever assim. Eu sou muito melhor escrevendo sobre corações partidos, dias na praia, perseguições por animais ferozes (um ganso e uma vaca, em momentos diferentes da vida), invasões alienígenas (quando uma mariposa entrou em casa) ou mesmo sobre publicidade, sobre minha cidade, sobre almoço e janta, sei lá.

Escrever é exercitar um músculo e essa acomodação de só escrever o que vai ser aprovado me deixou preguiçosa e um tanto quanto flácida. Vou começar a levantar peso de novo.

Peçam posts, sugiram temas. Eu escrevo. Vamos ver se assim a coisa vai.

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Chocolate, medo do fracasso e skate

Tô sem comer chocolate desde o carnaval.

E sem carne vermelha.

Sem refrigerante.

Sem bebida alcoólica.

Não, não tem sido uma morte horrível. Essa semana sonhei com uma bisteca suculenta, mas o desejo veio e passou logo depois. O mais sofrido de tudo isso, sem dúvida, é o chocolate. Comprei um ovo do Star Wars e não abri. Me oferecem trufas e pedaços de chocolate e não como. Esses dias vi um perfeito pudim de chocolate e sorri maniacamente enquanto o garçom falava o quanto ele era saboroso. Mas não comi.

Eu acho engraçado quando encontro essa força de vontade dentro de mim. É estranho pensar que eu CONSIGO fazer alguma coisa assim. Passei boa parte da vida achando que não conseguia fazer muita coisa, com medo de tentar e falhar. Eu me cobro demais, morro de medo de fracassar e depois ter que encarar meu fracasso.

Acho que por isso nunca tentei aprender a andar de skate ou surfar de verdade. Nunca tentei aprender a tocar um instrumento de verdade. São coisas que eu acho muito bonitas e me vejo incapaz de fazer, e por medo de descobrir com certeza que sou incapaz de fazer, nem tento.

Será que um dia, depois dos 40 anos, vou conseguir subir numa tabuinha de madeira e deslizar sobre rodinhas? Alguém em sã consciência anda de skate depois dos 40? Por que eu tô subitamente preocupada com skate? Será que foi porque li sobre a Cara-Beth Burnside?

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Talvez eu queira mesmo é comer um chocolate.

Talvez eu queira mesmo é ir pra praia sentir um pouco de sol no corpo. Ou voltar a correr com regularidade. Ou fazer aula de skate, mesmo.

Ou não fazer 38 anos esse ano, porque trinta e oito, trin-ta-e-oi-to é muito idade de senhora. De mulher adulta e crescida que toma as próprias decisões. Eu por outro lado quando posso tomar decisões decido usar uma camiseta pink de cavalinhos. Ou compro livros ou um sapato que não preciso. E flores, eu sempre compro flores.

Comprar flores é uma boa decisão, na verdade. Não vou parar de comprar flores.

Mas talvez decida parar de comer carne de vez.

Usando cardigans

Durante algum tempo tive um relacionamento com um cara que só gostava do meu cabelo de um jeito: liso, comprido e solto. Reclamava se eu prendia ou dizia que ia cortar. Reclamava se eu dizia que ia mudar a cor.

Ele também achava que eu era um pouco chamativa demais; que ria alto demais; que tinha amigos demais; que me expunha demais; que usava decote demais; que aparecia demais. E ele odiava quando usava cardigans, por algum motivo que jamais entendi.

E eu, tonta que sou, mantive meu cabelo liso, solto e comprido por tempo demais. E baixei a voz e a risada, e tentei ser um pouco menos. E funcionou por um tempo, mas não pra sempre – raras vezes funciona pra sempre tentar ser quem você não é.

Porque eu sou fabulosa, gente.

fabulous

Hoje eu saí de casa com o cabelo trançado e preso num rabo de cavalo todo armado. E tô de cardigan ESTAMPADO. Eu amo cardigans e amo decote e amo rir e amo amigos e amo ser quem eu sou.  E nunca, nunquinha mais eu vou deixar que alguém interfira na minha vida assim. Senão, quando acaba (e sempre acaba se é nesse formato), eu fico muito destruída porque vivia em função do outro. É como se a me perdesse de mim e não soubesse nunca mais voltar pra casa que sou eu. Essa entrega absurda, esse desejo de agradar o outro, essa vontade de ser o que o outro espera de nós: isso não é amor, mesmo que pareça e que livros e filmes tenham feito a gente acreditar nisso.

Amor, antes de tudo, é amar a si. Depois é que conseguimos amar outra pessoa: quando estamos tão bem em nossa própria pele que somos amados exatamente por quem somos. Não há desejo de mudar o outro, nem de mudar a si pra se adaptar ao outro. É aceitar quem a outra pessoa é e desejar estar perto dela exatamente assim.

Amor é equilíbrio. Se há anulação em função do outro o tempo todo, se constrói uma relação dependente, não-saudável, onde um dos lados vive em constante infelicidade tentando se adequar e o outro em constante infelicidade por não conseguir amar alguém diferente do que imagina que deseja.

Mais fácil terminar. Quer dizer: terminar jamais é fácil. É doloroso, é assustador. A perspectiva de abrir mão de quem se supõe amar é terrivelmente doída. E pensar na solidão que vem depois é ainda mais doloroso. Por isso muitas pessoas emendam relacionamentos e repetem os mesmos erros. É a mulher que diz que todo homem não presta porque a trai ou o homem que diz que toda mulher perde a atração depois de um tempo. Essas pessoas não estão felizes e preferem a infelicidade ao lado de alguém do que a paz e a solidão temporária.

É uma escolha, suponho. Nesse momento de vida eu escolhi usar meus cardigans e prender o cabelo. E tá dando tão certo que tá até ficando bonito. 🙂

Tinderella

Decidi que ia deletar o Tinder. Entrei no app pra isso e VRÁ, um match. O moço tinha um sorriso bonito, um ano mais novo que eu, me deu oi, eu respondi o oi. Ele morava perto da minha casa e gostava de ir ao mesmo restaurante que eu. Ele peguntou se eu era solteira, disse que sim, ele também era. Ele gostava de skate e de Pearl Jam. Era corinthiano e adorava conversar. Gostava de crianças até. E passou o reveillon na mesma praia que eu.
Podia ser a minha grande história de amor, imaginem só? Eu contando pros nossos filhos que quando estava desistindo de encontrar o amor da minha vida, ele havia aparecido no Tinder inesperadamente.
Porém o moço em questão tinha alergia a gatos, fez uma piadinha ruim a respeito de “mulher fácil”, disse que não tinha paciência pra ler, só curtia filmes de ação, ficou horrorizado quando afirmei que não curtia bacon e preferia comer salada do que fritura, e pra coroar a conversa o rapaz não sacou minha referência a Star Wars.
Deletei a porra toda e fui pegar uma água geladinha antes de dormir.

Socorro.

Entrou uma mariposona aqui em casa. Meus gatos, esses dóceis e gentis vira-latas, se transformaram em velocíssimas e agressivas MÁQUINAS DE MATAR e passaram a perseguir a bichinha, aos pulos e tapas. Armada de um pano de prato, espantei os gatos e me prendi na cozinha com o inseto voador, vendo-me diante de outro dilema: como capturar e libertar uma mariposa do tamanho da minha mão? Lembrando que eu não gostaria de ter que tocar nela e que me apavora a ideia de que ela possa se enroscar em meu cabelo.
Esperei a monstrinha se acalmar e pousar na parede sobre a pia. Com uma tigela e uma tampa grande de tupperware consegui aprisiona-la e transporta-la em segurança até a janela.
Porém minha casa tem telas, amigos, telas em todas as janelas, sem exceção. Aí, descabelada, descalça e com uma roupa velha, fui cuidadosamente carregando a tigela-prisão até a pequena janela da escada do prédio. Que no caso estava fechada e lacrada.
Voltei para dentro de casa pensando que se a mariposa havia entrado pela tela, por ela ia ter que sair. Soltei a projeto de Mothra na janela e ela ficou pousadinha no parapeito, sem poder entrar com o vidro fechado mas sem dar mostras de conseguir sair. Já suspirando, busquei na cozinha um hashi descartável daqueles que se ganha ao comprar comida chinesa. Cutuquei o traseiro da mariposa até ela se espremer por entre a tela e sair voando. Meus gatos me olham com reprovação, sabendo que os privei de uma emocionante caçada, para não mencionar a humilhação do espancamento com pano de prato com bordado em ponto cruz. Temo deixar a janela aberta com medo da mariposa voltar, não posso deixar fechada por conta do calor.
E ainda é segunda-feira.

Velhos hábitos, novos erros

Bandinha daora de hoje: Hot Bodies in Motion, um pessoal de Seattle com dois albuns lançados, que faz um som inspirado por blues/soul/rockão 70’s. Lembra um pouco Black Keys mas é mais suingado.

Essa música fala sobre um cara e uma mina, e aparentemente ela zoou o relacionamento deles e ele ficou indo atrás dela por um tempo, ficando com ela de novo, levando mais porrada. Mas aí ele resolve mudar de ideia e diz:

Don’t misunderstand me when I say 
I’m gonna avoid you like the plague

(não me interprete mal quando digo
Vou evitar você como a peste) 

Porque de fato, old habits die hard, e é muito fácil a gente ficar na mesma rotina, cometendo os mesmos erros. E quando a gente comete os mesmos erros a gente se sente apenas estúpido. O negócio é cometer erros novos, porque aí apesar de estúpido a gente se sente aventureiro, ousado, disposto a correr riscos.

Por um 2015 com novos erros pra todos nós.

Voltei

Depois de tantos dias na praia, curtindo o dolce far niente, é estranho estar em São Paulo e ter compromissos. Um almoço, dar um pulo na casa de um amigo pra alimentar os gatos, tirar foto 3X4 pra um documento, dar carona a uma amiga, fazer cópias de outros documentos, olhar o extrato do banco e ver se tudo caiu direitinho. A vida volta ao normal em um único dia na capital.
Estava bom ir devagar, eu estava gostando dessa lentidão calorenta. Serviu pra lembrar que é possível viver tirando um pouco o pé do acelerador e pra refletir em uma série de coisas importantes – todo o tempo deitada à beira-mar, as horas na direção, tudo isso vira ócio reflexivo e ajuda a fechar gestalts, a olhar mais pra mim mesma do que pro outro, e a pensar em maneiras de ser uma pessoa melhor, a viver de maneira mais tranquila.
Agora só preciso manter tudo isso em mente nos próximos 361 dias e acho que chego bem ao final desse ano.